Muito se fala hoje sobre a importância de desenvolver habilidades no processo educativo. A própria Base Nacional Comum Curricular foi construída valorizando competências e aprendizagens progressivas.
Na prática, isso significa compreender que a criança não aprende de forma imediata. Antes de ler bem, escrever com autonomia, resolver problemas matemáticos ou defender suas opiniões, ela precisa desenvolver habilidades anteriores.
Essas habilidades envolvem observar, imaginar, compreender, experimentar, comparar, questionar e criar.
Ou seja: ninguém constrói competências sólidas sem antes desenvolver habilidades fundamentais.
O problema é que muitos adultos não aprenderam assim
Embora esse conceito pareça simples, ele ainda gera dúvidas entre professores e famílias.
E não por resistência ou falta de interesse.
A dificuldade existe porque muitos de nós fomos educados em um modelo baseado em repetição, cópia e memorização. Pouco se falava sobre processos, ritmos individuais ou construção gradual da aprendizagem.
Então surge uma questão importante:
Como oferecer algo que também não recebemos?
Essa pergunta precisa ser feita sem culpa, mas com honestidade.
Quando a escola vira peso
Crianças são curiosas por natureza. Gostam de descobrir, testar, perguntar, insistir.
Mesmo assim, vemos diariamente crianças que não gostam da escola, que se sentem desmotivadas ou deslocadas.
Muitas vivem em estado constante de cobrança:
- precisam acompanhar o ritmo esperado;
- precisam produzir rapidamente;
- precisam acertar o tempo todo.
Quando isso acontece, surgem comportamentos que costumam ser mal interpretados:
- desinteresse
- agitação
- indisciplina
- resistência
- apatia
Em muitos casos, não é falta de capacidade. É apenas uma reação ao excesso de pressão.
Antes da leitura, vem a imaginação
Queremos que a criança goste de ler.
Mas cultivamos sua imaginação?
Contamos histórias? Conversamos sobre personagens? Criamos momentos prazerosos com livros?
Antes do hábito da leitura, existe a habilidade de imaginar.
Antes da escrita, vem o sentido
Queremos que a criança escreva bem.
Mas mostramos para ela que a escrita faz parte da vida?
Bilhetes, listas, mensagens, convites, desenhos legendados, anotações do cotidiano — tudo isso mostra que escrever tem função real.
Antes da escrita formal, vem a compreensão de que escrever comunica.
Antes da consciência ambiental, vem a conexão com a natureza
Queremos ensinar sustentabilidade.
Mas oferecemos tempo ao ar livre? Contato com plantas, terra, chuva, animais, céu, vento?
É difícil cuidar daquilo com que nunca se criou vínculo.
Aprender precisa ser leve
Aprender algo novo não deveria ser um processo tenso.
A criança precisa sentir segurança para errar, tentar novamente e evoluir no próprio ritmo.
Isso exige dos adultos uma mudança importante: sair da pressa e desenvolver sensibilidade para observar o momento de cada criança.
Família e escola precisam caminhar juntas
Nem toda habilidade foi estimulada em casa. E muitas famílias também não receberam esse direcionamento.
Por isso, escola e família não devem competir entre si.
Precisam se unir.
O professor educa a criança, mas também pode orientar famílias. E famílias fortalecem o trabalho da escola quando compreendem os processos da aprendizagem.
Como diz o provérbio africano:
“É preciso uma aldeia para educar uma criança.”
Quando a criança se sente capaz, tudo muda
Quando suas habilidades são respeitadas e ela não é pressionada a entregar o que ainda não consegue, algo poderoso acontece.
Ela deixa de ser rotulada como “copista”, “desatenta” ou “problemática”.
Ela começa a confiar em si.
E quando uma criança acredita que consegue aprender, nasce nela o prazer de criar, pesquisar, experimentar e crescer.
Esse é o verdadeiro objetivo da educação.


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